
Em defesa da boa imagem dos portugueses
Se os portugueses sabem pouco da Alemanha, os
alemães não sabem muito mais de Portugal. Se alguém lhes colocar
a questão, talvez se lembrem do sol e da praia, e, com um pouco
de sorte, de Figo e do fado. Haverá ainda quem mencione o José e
a Maria, imigrantes de longa data e seus vizinhos, com os quais
"nos damos muito bem".
A imagem que os alemães têm dos portugueses foi marcada, de
forma decisiva, pela convivência com os que vieram para este
país ao longo dos últimos quarenta anos. Os imigrantes
portugueses são considerados trabalhadores, ordeiros,
disciplinados, afáveis e bem educados. Em parte, isto deve-se ao
facto de serem poucos: 130.000 portugueses num total de sete
milhões de estrangeiros acabam por passar quase despercebidos.
Perante os enormes problemas que causam comunidades estrangeiras
como a turca, a invisibilidade portuguesa é tida por uma virtude
pelos responsáveis alemães. Infelizmente, os próprios
portugueses que aqui residem parecem partilhar desta opinião.
Assim, aceitam resignadamente tudo "o que vem de cima", hábito
que trouxeram, aliás, de Portugal, e remetem-se a um silêncio
profundo perante as maiores injustiças, que é interpretado como
aquiescência pelas partes interessadas e agradecidas.
Não deixa, no entanto, de ser um facto que a grande aceitação
dos portugueses na Alemanha é também mérito próprio e resulta da
vontade e da capacidade de integração e de adaptação tipicamente
lusas. Assim, o primeiro contacto que o alemão médio tem com o
nosso povo é inquestionavelmente positivo. O segundo, regra
geral, é fruto de uma quinzena passada numa praia do Algarve,
onde o convívio com portugueses é necessariamente restrito. Não
obstante, a maioria dos turistas regressa maravilhada com a
simpatia e o acolhimento caloroso. Um ou outro mais atento
notará o desinteresse escandaloso do português pelo
meio-ambiente, a falta de civismo nas estradas e outros aspectos
menos elogiosos para o nosso país. Mas educadamente tentará
sempre encontrar uma explicação - bem intencionada e
incomodativamente paternalista - para falhas que jamais seriam
aceites na Alemanha.
Os conhecimentos dos que nunca foram a Portugal limitam-se às
raríssimas notícias que aqui aparecem nos jornais e na televisão.
Como é inevitável, trata-se, sobretudo, dos incêndios no Verão,
da instabilidade política resultante de eleições sucessivas, dos
processos de pedofilia e dos "arrastões". De resto, este
pretenso crime em massa de jovens de descendência africana numa
praia portuguesa é um exemplo contundente para a falta de
capacidade de Portugal de gerir a sua imagem no exterior. Quando
se tornou claro que o "arrastão" nunca aconteceu não houve
qualquer tentativa por parte dos meios de comunicação
portugueses e das autoridades que alinharam na vergonha para
pedir desculpas públicas pela grave injúria cometida contra um
segmento marginalizado da população. A política também não
reagiu. Cá fora ninguém ficou a saber que não houve, afinal,
nenhum "arrastão", que as praias são seguras e que se pode
continuar a passar férias tranquilas em Portugal. Isto, apesar
do turismo representar uma parte importante do rendimento
nacional.
Por outro lado, às vezes é preferível que os alemães não se
debrucem demasiado sobre Portugal. Seria muito difícil
explicar-lhes certas aberrações que bradam aos céus, como os
tribunais que demoram décadas para concluir um processo
rotineiro, um sistema de saúde que só funciona para os ricos, um
ministro que se propõe a fornecer medicamentos contra a gripe
das aves a 100.000 portugueses alegadamente "indispensáveis", -
leia-se: o restante Governo, o primo e a comadre, como manda a
tradição - ou outro que pretende introduzir um sistema judicial
exclusivo para os VIPs da nação, para não terem que "perder
tempo" em tribunais de baixa instância, ficando-lhes reservadas,
em exclusivo, as instâncias superiores. Para já não falar de um
Supremo Tribunal que acha correcto e legal que se inflijam maus
tratos físicos a crianças.
São alguns dos aspectos da vida portuguesa que de certeza
deparariam com estranheza, chacota e indignação se fossem
conhecidos na Alemanha. Mas não são, e assim, de um modo geral e
para grande sorte nossa, os alemães têm uma imagem positiva dos
portugueses. Este Verão vai acontecer algo de inédito desde os
anos 60: o Mundial 2006 trará à Alemanha de uma só assentada
milhares de portugueses. O seu comportamento será decisivo para
a nossa boa imagem neste país.
Vale a pena preservá-la.
Cristina Krippahl (Portugal Post)